ENTREVISTA:
Heloisa Viscaíno F. S. Pereira.
ASSUNTO: DISLEXIA
Preconceito e desconhecimento são duas características marcantes quando o assunto é dislexia. Esta doença não é muito popular. Em geral, as pessoas não fazem idéia de seus sintomas e peculiaridades. Logo, identificar um portador da doença torna-se complicado. A dislexia é uma enfermidade que pode prejudicar, sobretudo, o desempenho escolar do portador numa importante fase do aprendizado. Dessa forma, para que a doença se torne mais conhecida e difundida, entrevistamos a neuropediatra e professora adjunta do Departamento de Pediatria da Univer-sidade Estadual do RJ. (Uerj) e do Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe), Heloisa Viscaíno F. S. Pereira.
1. O que é dislexia? A principal característica da dislexia são problemas relacionados ao letramento e à leitura. A compreensão dos símbolos gráficos das letras e sua transposição automatizada para os sons correspondentes e seu significado são dificultados em graus variados, acarretando problemas na alfabetização e, posteriormente, no ritmo e na automaticidade da leitura. Existe uma predisposição familiar e uma associação frequente com outros problemas de aprendizagem e comportamento devendo sempre ser avaliada a presença de associações. Sintomas podem ser confundidos com atraso intelectual ou decorrerem de problemas diversos de saúde física ou mental. É fundamental, portanto, que seja feita consulta que aborde a saúde como um todo e defina a possibilidade de dislexia e seus diagnósticos diferenciais.
2. Em que idade os sintomas costumam surgir? É mais comum em homens ou mulheres ou não há diferença?Apesar de serem geralmente encaminhados para avaliação apenas no início do processo de alfabetização, muitos sintomas podem ser percebidos antes, a partir da observação cuidadosa de pais e professores de educação infantil.
Deve-se salientar que o aprendizado da escrita não surge em um instante. Ele é fruto da construção de conceitos gráficos, matemáticos e psicomotores adquiridos nos primeiros anos de vida com as atividades próprias de exploração motora e cognitiva do período. Crianças pequenas com dislexia têm dificuldades com a identificação e busca de rimas, com os conceitos de lateralidade e ritmo e, frequentemente, com as atividades que exigem orientação espacial. A prevalência é maior no sexo masculino.
3. Quais as características dos portadores?São pessoas de inteligência normal e que apresentam uma desproporção entre sua capacidade intelectual e sua capacidade de letramento e fluência na leitura.
4. Como a dislexia pode prejudicar o dia-a-dia do doente?O paciente percebe suas dificuldades e se frustra com elas, já que, muitas vezes, a condição é agravada pelo desconheci-mento de parte de professores e familiares. Sua vida escolar pode ser cravejada de fracassos e sua auto-estemas afetada.
5. Há prevenção?O diagnóstico precoce e a informação são as melhores ações de prevenção de danos. A dislexia não tem prevenção em si ou cura completa. Existem métodos de ensino e técnicas que possibilitam superar grande parte das dificuldades.
6. Qual a melhor maneira de conviver com a doença?Conhecer o problema e buscar informações de fontes confiáveis. Procurar auxílio profissional para diagnóstico e tratamento médico e fonoaudiológico, considerando a possibilidade de diagnósticos associados tais como Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). A criança disléxica deve frequentar a escola regular, e seus professores devem ser orientados para as técnicas de inclusão destas crianças que, entre outras, priorizam o respeito a sua necessidade maior em tempo para completar tarefas de leitura e, eventualmente, métodos de avaliação verbal.